
O terceiro tipo: o solo com espinhos. (Augusto Cury)

O terceiro tipo de solo representa uma terra
melhor do que temos visto até o momento.
O solo era adequado. Não era compactado,
não havia pedras no seu interior.
As sementes encontraram um excelente clima
para crescer. Lançaram raízes profundas,
conseguiram atingir águas submersas,
suportaram o calor do sol e as intempéries.
Elas cresceram com vigor e entusiasmo.
Os problemas exteriores não conseguiam destruí-las.
Junto com as pequenas plantas geradas pelas belas
sementes cresceram, sutilmente, os espinhos.
No inicio, os espinhos aparentavam se gramíneas
frágeis e inocentes. Havia espaço para todas as
plantas, poderiam conviver juntas. Entretanto,
os meses se passaram e as plantas e os espinhos
cresceram. Então, algo imprevisível aconteceu.
O espaço que era tão grande começou a ficar
pequeno, iniciou-se uma competição.

Os espinhos começaram a competir com as plantas
pelos nutrientes, oxigênio, água e raios solares.
Como estavam mais adaptados, deram um salto.
Cresceram rapidamente e começaram a sufocar as
plantas. Elas clamavam pelos nutrientes e pelos
raios solares para fazer fotossíntese, mas os
espinhos controlavam seu desejo de viver.
Assim, apesar de ter raízes profundas e de
conquistar um bom porte, as plantas não
frutificaram, não sobreviveram.
Que grupo de pessoas ou que estágio da
personalidade esse tipo de solo representa?
Representa as pessoas mais profundas e sensatas,
que permitiram o crescimento das sementes do
perdão, do amor, da sabedoria, da solidariedade
e de todas as demais sementes do plano transcendental
do mestre dos mestres.

Elas suportam as incompreensões, as pressões,
as dificuldades externas. Viram Jesus sofrer
oposição e perseguição, mas não desanimaram.
Ficaram amedrontadas quando ele, por diversas
vezes, quase foi apedrejado, mas não o abandonaram.
Nenhuma crítica, rejeição, doença, decepção ou
frustração parecia roubar-lhes o desejo de segui-lo.
Dia a dia tornaram-se fortes para vencer os
problemas do mundo.
Os anos se passaram e elas pareciam imbatíveis.
Entretanto, não estavam preparadas para superar
os problemas do seu próprio mundo, que cresciam
sutilmente no âmago do seu ser. Jesus disse,
nessa parábola, que os espinhos representam
as preocupações existenciais, os cuidados do
mundo, as ambições, a fascinação pelas riquezas.
Quem não tem preocupações? Freqüentemente, somente
as pessoas irresponsáveis estão livres de preocupações.
Quem não antecipa situações do futuro vive no passado?
Quem não se perturba com as incertezas do futuro?
Quem não tem ambição? Mesmo o mais humilde dos homens
tem ambição, ainda que ela seja para conservar sua
timidez e não expressar suas idéias. quem não é
seduzido pelas riquezas? Há inúmeros tipos de
riquezas que fascinam o ser humano: possuir dinheiro,
ser admirado, ser reconhecido, ser maior do
que os outros.

Os grandes problemas, como doenças ou risco de morrer,
não destruíam os discípulos. Agora teriam de passar
no teste dos pequenos problemas que cresciam no solo
da sua alma e competiam com as plantas oriundas das
sementes do mestre dos mestres. A arrogância competia
com o perdão, as intolerância competia com a compreensão,
a necessidade de poder competia com o desprendimento, a
raiva e o ódio competiam com o amor.
Um dos maiores problemas que sufoca as plantas não é o
fracasso, mas o sucesso. O sucesso profissional,
intelectual, financeiro e até espiritual, se não forem
bem administrados, paralisam a inteligência, obstruem
a criatividade, destroem a simplicidade. Seu sucesso o
tem paralisado ou libertado?

Muitos líderes espirituais dão uma atenção especial
para cada um dos seus ouvintes, se preocupam
com a dor que eles sentem, quando o número deles
é pequeno. Todavia, após conquistarem milhares
de ouvintes, perdem o encanto por eles, pois se
tornam apenas números. Jesus disse que ele era
o bom pastor. A fama jamais o fez perder o contato
íntimo com as pessoas. Ele conhecia cada ovelha pelo
seu nome, se preocupava com cada uma das suas necessidades.
Muitos cientistas, no começo da carreira, são ousados,
criativos e aventureiros. Mas, à medida que sobem na
hierarquia acadêmica, sufocam sua capacidade de pensar,
se tornam estéreis de idéias. muitos executivos, quando
estão no auge da carreira, sufocam sua coragem,
perspicácia e sensibilidade. Têm medo de correr
riscos, não exploram o desconhecido. Perdem a
capacidade de enxergar os pequenos problemas que
causarão grandes transtornos no futuro.

As sementes dos espinhos estavam presentes desde
a mais tenra formação da personalidade dos discípulos,
portanto estavam ecologicamente adaptadas. Algumas
preocupações são legítimas, como a educação dos filhos,
ter segurança, uma boa aposentadoria, um bom plano
de saúde. O problema ocorre quando essas preocupações
nos controlam, roubam nossa tranqüilidade e capacidade
de decidir. Muitas pessoas são diariamente assaltadas
por pensamentos perturbadores. Elas são maravilhosas
para os outros, mas são escravas dos seus pensamentos.
Não sabem cuidar da sua qualidade de vida.
Eu moro no interior de uma mata. Um lugar belíssimo.
Não é fácil plantar uma flor neste lugar, pois ela
não está adaptada ecologicamente. As formigas a
atacam com grande voracidade e os espinhos e outras
plantas crescem rapidamente competindo com ela.
É preciso cultivar diariamente, arrancar as ervas
daninhas, afofar a terra, irrigar e suprir com
nutrientes.Do mesmo modo, precisamos cuidar do
ecossistema do coração psicológico. Diariamente,
temos de remover o lixo que se acumula nos terrenos
da nossa emoção.
Temos de reciclar os pensamentos negativos e
perturbadores que sutilmente são produzidos.

Judas foi assaltado pouco a pouco por pensamentos
perturbadores e não os superou. Nos primeiros anos,
ele jamais pensara que trairia Cristo. Judas queria
que ele virasse a mesa dos fariseus, mas Jesus era
paciente com seus inimigos. Judas queria que ele
tomasse o trono político de Israel, mas ele queria
o trono do coração humano. Ele admirava Jesus, mas
não o entendia, não o amava. Estudaremos esse assunto
quando abordar o desenvolvimento da personalidade dos
discípulos. Os espinhos, no secreto da alma de Judas,
cresceram. Como ele não os tratou, eles sufocaram os
belos ensinamentos do mestre dos mestres. Perdemos
simplicidade à medida que a vida ganha complexidade.
O homem do mundo moderno é mais infeliz do que o
do passado.
A ciência aumentou, a tecnologia deu saltos, as
necessidades expandiram-se e, assim, a vida perdeu
sua singeleza e poesia.

Pais e filhos tornaram-se técnicos em falar de coisas
que não dizem respeito a eles, mas não sabem falar de
si mesmos. Não sabem chorar e sonhar juntos. Amigos
ficam anos sem se visitar ou dar sequer um telefonema
um para o outro. Não temos tempo para as coisas
importantes, pois estamos entulhados dentro de nós
mesmos. Se não temos problemas exteriores, nós os criamos.
Jamais devemos nos esquecer de que o registro das
experiências psíquicas é automático, produzido pelo
fenômeno RAM. Se não tratarmos as nossas angustias,
preocupações com doenças, medo do futuro, reações
ansiosas, eles vão se depositando nos solos da
memória tornando-os ácidos e áridos. As flores não
suportam tal acidez, mas os espinhos a adoram.
Quem não tem esse cuidado vai se entristecendo e
adoecendo lentamente, ao longo da vida, mesmo que
tenha tido uma infância saudável. Chega ao ponto
da vida ficar tão amarga que a pessoas não entende
por que é infeliz, impaciente, tensa ou por que
possui doenças psicossomática. Não há problemas
exteriores, não atravessa crises familiares,
financeiras e sociais. Tem todos os motivos
do mundo para viver sorrindo, mas está angustiada.
Por quê? Porque não cuidou das ervas daninhas
do seu interior.

A parábola do semeador contada por Jesus é
altamente psicoterapêutica. Devemos estar alerta.
Que tipo de solo você é? Você tem cuidado das
principais plantas da sua vida? Você tem plantado
flores nos solos de sua memória ou os tem entulhado
de lixo e preocupações sociais?

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