Segundo tipo: o solo rochoso
(Augusto Cury)
O solo rochoso é o segundo tipo de coração que Jesus simbolizava nessa parábola. Era um solo melhor do que o que estava à beira do caminho. As sementes nele lançadas encontraram condições mínimas para germinar. Elas logo nasceram, visto que a terra era pouca. Porem, logo veio o calor do sol e elas não suportaram, já que suas raízes eram superficiais.
Quem é representado por esse tipo de solo? Como o próprio Jesus disse, ele representa todos os que receberam rápida e alegremente a sua palavra. Eles fizeram festas para ele. Compraram seus mais belos sonhos. Júbilo era incontido. Mas, um dia, os problemas chegaram, as perdas surgiram, as perseguições bateram à porta. Ficaram confusos.
Perceberam que o mestre dos mestres não eliminava todos os obstáculos que eles encontravam pelo caminho. Ficaram assustados. Entenderam que não estavam livres de decepções. Creram que todas as suas orações seriam rapidamente atendidas. Pensaram que segui-lo era viver um céu sem tempestade, relações sem desencontros,trabalhos sem fracassar. Mas se enganaram.

Jesus nunca fez essas promessas. Prometeu, sim, força na fragilidade, refrigério nos fracassos, coragem nos momentos de desespero. Eles viram o próprio Jesus passar por tantos problemas e correr risco de morrer. Essas cenas os abalaram. Será que é ele o Messias? Será que vale a pena segui-lo? Será que seus sonhos não são delírios? Essas perguntas os atormentavam. Desanimados, muitos desistiram de segui-lo.
Creio que todos os jovens seguidores de Jesus passaram por esse estágio. Eles não eram gigantes, como nenhum ser humano o é. Todos nós temos nossos limites. Às vezes, uma pequena pedra para alguém, fácil de ser contornada, representa uma grande montanha para outrem e vice-versa. Não é tão fácil suportar o calor dos problemas, mas é necessário. O medo dos problemas intensifica a dor. Enfrentá-los é uma atitude inteligente.
Mas qual é a melhor maneira de enfrentá-los? Lançando raízes nos solos da nossa psique. As raízes de uma árvore são o segredo de seu sucesso, de sua capacidade de suportar o calor do sol, as tempestades e o frio. As raízes dão sustentabilidade às plantas, suprem-nas com nutrientes e água.
O segredo do sucesso de um estudante, de um executivo, de um profissional liberal, de um esportista também está nas suas raízes. Muitos observam os resultados e ficam fascinados, mas não percebem que seus segredos são a coragem, a humanidade, a simplicidade, a determinação, o desejo ardente de aprender enraizados nos solos de sua emoção e de seus pensamentos.
Se você não se preocupa em cultivar raízes internas, não espere encontrar águas profundas nos dias de aridez. As plantas que suportam a angústia do sol e os períodos de sequidão não são as mais belas, mas as que têm raízes mais profundas. Elas atingem o lençol freático. Encontram as águas profundas.
Um dia, as dificuldades e os problemas aparecerão, mesmo para alguém que sempre teve uma rotina tranqüila. Os amigos vão embora, a pessoa que mais amamos não nos suporta, os filhos não nos compreendem, o trabalho vira um tédio, o dinheiro fica escasso, os sintomas aparecem.
O que fazer? Entrar em desespero? Não! Aproveitar as oportunidades para lançar raízes. Jesus demonstrou que, para lançar raízes, é necessário remover as pedras, o cascalho do nosso ser. Como? Andando por ares nunca antes respirados. Percorrendo os labirintos de nosso ser. Correndo riscos para conquistar aquilo que realmente tem valor. Aceitando com coragem as perdas que são irreparáveis. Reconhecendo falhas, pedindo desculpas, perdoando, tolerando, tirando a trave dos nossos olhos antes de querer remover os cisco do olho de alguém.
Os perdedores perturbam-se com o calor do sol, os vencedores usam suas lágrimas para irrigar o solo do seu ser. Não tenha medo das turbulências da vida, tenha medo de não ter raízes.
Certa vez, Jesus fez um discurso para testar seus ouvintes. Ele chocou-os dizendo que eles deviam comer da sua carne e beber do seu sangue. Ele, na realidade, queria dizer que suas palavras é que eram um verdadeiro alimento para nutrir os solos do espírito e da alma deles. As pessoas que ouviram a primeira parte do seu discurso ficaram perplexas. Como poderiam comê-lo? Escandalizados, vários discípulos o abandonaram.
Então, ele fitou os jovens discípulos e desferiu uma pergunta inesperada. Deu-lhes liberdade para que eles o abandonassem, um momento de silêncio reinou. Em seguida, Pedro tomou a dianteira e, em outras palavras, disse que ele e seus amigos não tinham para onde ir, pois Jesus tinha as palavras da vida eterna. Eles haviam crido e sonhado o sonho de Jesus.
Os jovens galileus passaram por muitos testes. Esse foi mais um deles. A cada teste lançavam raízes mais profundas. Os problemas e os sofrimentos eram ferramentas que os faziam garimpar outro de si mesmos.
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